Se você está em uma jornada de fertilização in vitro (FIV), provavelmente já ouviu falar que o sucesso não termina na coleta dos óvulos. O preparo do útero para receber o embrião é uma etapa fundamental. Recentemente, a ciência médica tem abraçado um movimento chamado “Back to Nature” (de volta à natureza), que busca replicar ao máximo o que acontece em uma gravidez espontânea.
Nesse contexto, um novo protocolo chamado NPP (Fase Proliferativa Natural) tem ganhado destaque por unir o melhor de dois mundos: a segurança da biologia natural com a praticidade da tecnologia.
O que é o protocolo NPP?
Tradicionalmente, muitas clínicas utilizam o Ciclo Artificial (HRT), onde o corpo da mulher é “desligado” e os hormônios são fornecidos inteiramente por medicamentos (estrogênio e progesterona). No NPP, a abordagem é diferente:
- Aproveitamos o seu próprio estrogênio: Monitoramos o crescimento natural de um folículo no seu ovário. Esse folículo produz o estradiol necessário para engrossar o endométrio (o revestimento do útero).
- O gatilho da progesterona: Assim que o endométrio atinge uma espessura segura (geralmente 7 mm ou mais), iniciamos o suporte de progesterona.
- Agendamento preciso: A transferência do embrião é marcada para o sexto dia após o início da progesterona (em caso de blastocistos) ou quarto dia (no caso de embriões em clivagem), oferecendo uma previsibilidade que facilita a rotina da paciente e da clínica.
Por que o NPP é tão importante? O “Segredo” do Corpo Lúteo
A grande diferença do NPP para o ciclo artificial é que, no NPP, o corpo da mulher geralmente segue com o processo de ovulação. Isso resulta na formação do corpo lúteo — uma glândula temporária que se forma no ovário após a liberação do óvulo.
Antigamente, acreditava-se que o corpo lúteo servia apenas para produzir progesterona. Hoje, a ciência sabe que ele é uma “usina” de substâncias vitais (como relaxina e outros fatores vasculares) que preparam o sistema circulatório da mãe para a gravidez.
As funções do corpo lúteo incluem:
- Saúde Cardiovascular: Ajuda o corpo da mãe a adaptar a pressão arterial e o fluxo sanguíneo para a placenta.
- Redução de Complicações: A ausência do corpo lúteo (comum no ciclo artificial) está ligada a um risco maior de pré-eclâmpsia (pressão alta na gravidez) e bebês com peso acima do esperado.
- Ambiente mais estável: O corpo lúteo oferece um suporte hormonal mais fisiológico e robusto.
O que dizem as evidências científicas?
Um estudo de revisão abrangente publicado em 2026 analisou milhares de ciclos e trouxe dados reveladores sobre o NPP:
- Maiores chances de sucesso: A pesquisa mostrou que o NPP apresenta taxas de nascidos vivos significativamente superiores às do ciclo artificial (HRT).
- Menos sangramentos: Pacientes que utilizam o protocolo NPP apresentam uma redução drástica nos episódios de sangramento vaginal no primeiro trimestre — caindo de 37,6% no ciclo artificial para apenas 17,4% no NPP.
- Preservação da natureza: Em cerca de 95% dos casos, o início da progesterona no NPP não impede a ovulação natural, garantindo que o corpo lúteo esteja lá para proteger a gestação.
Isso significa que o Ciclo Artificial (HRT) deve ser abolido?
Definitivamente não. O ciclo artificial (HRT) ainda é uma ferramenta indispensável na medicina reprodutiva. Ele continua sendo a escolha ideal para:
- Mulheres que não ovulam: Pacientes com ciclos muito irregulares ou que não produzem folículos naturalmente dependem do suporte hormonal externo.
- Logística facilitada: Em alguns casos específicos de viagens ou restrições de agenda da paciente, o controle total do ciclo artificial pode ser necessário.
- Custos: O ciclo artificial costuma exigir menos visitas para ultrassonografia, o que pode reduzir o custo direto do preparo para algumas pacientes.
Conclusão
O objetivo da medicina moderna não é descartar a tecnologia, mas usá-la para potencializar a natureza. O protocolo NPP é uma prova disso: ele nos dá a segurança de um monitoramento preciso, mas sem abrir mão dos benefícios insubstituíveis que o corpo feminino oferece através do corpo lúteo.
Se você tem ciclos regulares, converse com seu médico sobre a possibilidade de um preparo mais fisiológico. Afinal, a ciência mais avançada, muitas vezes, é aquela que sabe a hora de deixar a natureza agir.
REFERÊNCIA
Erden M, Mumusoglu S, Uyanik E, Ozbek IY, Esteves SC, Humaidan P, et al. Revisiting natural cycle frozen embryo transfer: a systematic review and meta-analysis. Hum Reprod Update. 2026;00(00):1-19. doi: 10.1093/humupd/dmag002.



