Muitas mulheres que já enfrentaram um episódio de trombose — seja ela venosa profunda, pulmonar ou até mesmo uma trombose venosa cerebral (TVC) — acreditam que as portas para a Fertilização In Vitro (FIV) se fecharam. A preocupação é legítima: sabe-se que os hormônios da estimulação ovariana podem influenciar a coagulação.
No entanto, a ciência evoluiu e hoje temos estratégias robustas para tornar esse processo seguro. Ter um histórico de trombose não é uma contraindicação absoluta para a FIV, mas exige um planejamento diferenciado.
Por que o estímulo ovariano aumenta o risco de trombose?
Para entender o risco, precisamos falar sobre como o corpo responde à estimulação:
- Níveis suprafisiológicos de Estrogênio: Durante um ciclo natural, o corpo produz estrogênio para um único folículo. Na FIV, usamos gonadotrofinas para estimular vários folículos, o que eleva o estrogênio a níveis muito superiores aos normais. Esse excesso de estrogênio altera o equilíbrio do sistema de coagulação, tornando o sangue mais “espesso” (hipercoagulável).
- O papel da Síndrome de Hiperestimulo Ovariano (OHSS): Em alguns casos, a resposta ovariana é excessiva. Isso causa um aumento na permeabilidade dos vasos sanguíneos, levando à saída de líquidos do sangue para o abdômen ou tórax. Essa desidratação interna (hipovolemia intravascular), somada ao estrogênio alto, é o cenário perfeito para a formação de coágulos tanto em veias quanto em artérias.
- Transferência a fresco: Estudos indicam que ciclos de transferência de embriões a fresco têm um risco de 2,5 a 3 vezes maior de eventos tromboembólicos do que a linha de base da gravidez, em parte devido aos níveis hormonais remanescentes da estimulação.
Estratégias para reduzir o risco durante o tratamento
A boa notícia é que existem ferramentas para mitigar esses riscos quase por completo:
- Uso de Letrozol no protocolo: Originalmente usado no câncer de mama, o letrozol (um inibidor da aromatase) é usado na FIV para manter os níveis de estrogênio significativamente mais baixos durante a estimulação, sem prejudicar a coleta de óvulos.
- Gatilho com Análogo do GnRH (GnRHa): Em vez de usar o hormônio hCG para o amadurecimento final dos óvulos (que mantém o estímulo por muito tempo), usamos um análogo. Isso promove uma queda rápida nos níveis de estrogênio após a coleta e reduz drasticamente o risco de hiperestímulo.
- Tromboprofilaxia com Heparina: Para pacientes de alto risco, o uso de heparina de baixo peso molecular (como a enoxaparina) pode ser iniciado logo no começo da estimulação com gonadotrofinas para proteger o sistema vascular.
- Protocolo Antagonista: Este tipo de protocolo é o preferido para reduzir as chances de complicações hemodinâmicas.
- Congelamento Total (Freeze-all): Em vez de transferir o embrião imediatamente, congelamos todos os embriões. Isso permite que o corpo da paciente se recupere do estresse hormonal da coleta antes da transferência, o que é muito mais seguro para quem tem histórico de trombose.
Posso engravidar depois?
Sim. As fontes mostram que mesmo condições graves, como a trombose venosa cerebral, não impedem uma gravidez futura. O que muda é o acompanhamento: essas pacientes geralmente precisam de anticoagulação profilática durante toda a gestação e, especialmente, nas primeiras seis semanas após o parto, que é o período de maior risco.
Conclusão: Segurança em primeiro lugar
Se você tem histórico de trombose, o caminho para a maternidade via FIV ainda é possível, mas o “mapa” é diferente. Cada caso deve ser avaliado individualmente. O sucesso e a segurança dependem de um plano de tratamento personalizado, decidido por uma equipe multidisciplinar que inclua o especialista em reprodução humana e, obrigatoriamente, um hematologista experiente para ajustar a estratégia de proteção vascular.
As informações contidas neste artigo são baseadas em diretrizes científicas e estudos clínicos. Sempre consulte seu médico antes de tomar qualquer decisão terapêutica.
REFERÊNCIAS
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