Tive trombose: quer dizer que não posso estimular a ovulação para fazer FIV?

Muitas mulheres que já enfrentaram um episódio de trombose — seja ela venosa profunda, pulmonar ou até mesmo uma trombose venosa cerebral (TVC) — acreditam que as portas para a Fertilização In Vitro (FIV) se fecharam. A preocupação é legítima: sabe-se que os hormônios da estimulação ovariana podem influenciar a coagulação.

No entanto, a ciência evoluiu e hoje temos estratégias robustas para tornar esse processo seguro. Ter um histórico de trombose não é uma contraindicação absoluta para a FIV, mas exige um planejamento diferenciado.

Por que o estímulo ovariano aumenta o risco de trombose?

Para entender o risco, precisamos falar sobre como o corpo responde à estimulação:

  1. Níveis suprafisiológicos de Estrogênio: Durante um ciclo natural, o corpo produz estrogênio para um único folículo. Na FIV, usamos gonadotrofinas para estimular vários folículos, o que eleva o estrogênio a níveis muito superiores aos normais. Esse excesso de estrogênio altera o equilíbrio do sistema de coagulação, tornando o sangue mais “espesso” (hipercoagulável).
  2. O papel da Síndrome de Hiperestimulo Ovariano (OHSS): Em alguns casos, a resposta ovariana é excessiva. Isso causa um aumento na permeabilidade dos vasos sanguíneos, levando à saída de líquidos do sangue para o abdômen ou tórax. Essa desidratação interna (hipovolemia intravascular), somada ao estrogênio alto, é o cenário perfeito para a formação de coágulos tanto em veias quanto em artérias.
  3. Transferência a fresco: Estudos indicam que ciclos de transferência de embriões a fresco têm um risco de 2,5 a 3 vezes maior de eventos tromboembólicos do que a linha de base da gravidez, em parte devido aos níveis hormonais remanescentes da estimulação.

Estratégias para reduzir o risco durante o tratamento

A boa notícia é que existem ferramentas para mitigar esses riscos quase por completo:

  • Uso de Letrozol no protocolo: Originalmente usado no câncer de mama, o letrozol (um inibidor da aromatase) é usado na FIV para manter os níveis de estrogênio significativamente mais baixos durante a estimulação, sem prejudicar a coleta de óvulos.
  • Gatilho com Análogo do GnRH (GnRHa): Em vez de usar o hormônio hCG para o amadurecimento final dos óvulos (que mantém o estímulo por muito tempo), usamos um análogo. Isso promove uma queda rápida nos níveis de estrogênio após a coleta e reduz drasticamente o risco de hiperestímulo.
  • Tromboprofilaxia com Heparina: Para pacientes de alto risco, o uso de heparina de baixo peso molecular (como a enoxaparina) pode ser iniciado logo no começo da estimulação com gonadotrofinas para proteger o sistema vascular.
  • Protocolo Antagonista: Este tipo de protocolo é o preferido para reduzir as chances de complicações hemodinâmicas.
  • Congelamento Total (Freeze-all): Em vez de transferir o embrião imediatamente, congelamos todos os embriões. Isso permite que o corpo da paciente se recupere do estresse hormonal da coleta antes da transferência, o que é muito mais seguro para quem tem histórico de trombose.

Posso engravidar depois?

Sim. As fontes mostram que mesmo condições graves, como a trombose venosa cerebral, não impedem uma gravidez futura. O que muda é o acompanhamento: essas pacientes geralmente precisam de anticoagulação profilática durante toda a gestação e, especialmente, nas primeiras seis semanas após o parto, que é o período de maior risco.

Conclusão: Segurança em primeiro lugar

Se você tem histórico de trombose, o caminho para a maternidade via FIV ainda é possível, mas o “mapa” é diferente. Cada caso deve ser avaliado individualmente. O sucesso e a segurança dependem de um plano de tratamento personalizado, decidido por uma equipe multidisciplinar que inclua o especialista em reprodução humana e, obrigatoriamente, um hematologista experiente para ajustar a estratégia de proteção vascular.


As informações contidas neste artigo são baseadas em diretrizes científicas e estudos clínicos. Sempre consulte seu médico antes de tomar qualquer decisão terapêutica.

REFERÊNCIAS

  1. Reddy J, Oktay K. Ovarian stimulation and fertility preservation with the use of aromatase inhibitors in women with breast cancer. Fertil Steril. 2012;98(6):1363-1369.
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  3. Mauricio R, Sharma G, Lewey J, Tompkins R, Plowden T, Rexrode K, et al. Assessing and Addressing Cardiovascular and Obstetric Risks in Patients Undergoing Assisted Reproductive Technology: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2025;151:e661–e676.
  4. Saposnik G, Bushnell C, Coutinho JM, Field TS, Furie KL, Galadanci N, et al. Diagnosis and Management of Cerebral Venous Thrombosis: A Scientific Statement From the American Heart Association. Stroke. 2024;55:e77–e90.

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