Vitamina D antes da Fertilização in Vitro (FIV) aumenta as chances de gravidez na Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP)?

A suplementação de vitamina D melhora o resultado da FIV?
Essa é uma dúvida muito comum entre pacientes com Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP).

Nos últimos anos, a vitamina D ganhou destaque na medicina reprodutiva. Muitos conteúdos sugerem que níveis adequados dessa vitamina poderiam melhorar:

  • qualidade dos óvulos
  • receptividade do endométrio
  • taxa de implantação
  • risco de aborto
  • taxa de nascimento

Mas o que diz a melhor evidência científica disponível?

Por que a vitamina D entrou no debate sobre fertilidade?

A vitamina D não atua apenas na saúde óssea. Ela também está envolvida em:

  • metabolismo da glicose
  • modulação do sistema imunológico
  • função ovariana
  • expressão de receptores no endométrio

Estudos observacionais mostraram que:

  • mulheres com SOP frequentemente apresentam deficiência de vitamina D
  • níveis mais baixos se associam a maior resistência à insulina
  • algumas pesquisas sugeriram piores desfechos reprodutivos em mulheres com níveis reduzidos

Além disso, sabemos que existem receptores de vitamina D nos ovários, no endométrio e na placenta. Isso criou uma hipótese biologicamente plausível: corrigir a deficiência poderia melhorar os resultados da FIV.

Entretanto, associação não significa causalidade.

O grande ensaio clínico publicado no BMJ em 2026

Em 2026, foi publicado no BMJ um ensaio clínico multicêntrico, duplo-cego e placebo-controlado, considerado padrão-ouro em pesquisa clínica.

Como o estudo foi conduzido?

  • 876 mulheres com SOP
  • Todas seriam submetidas à FIV
  • Metade recebeu vitamina D (4.000 UI por dia)
  • Metade recebeu placebo
  • Suplementação por até 90 dias antes da FIV

Os níveis médios iniciais de vitamina D eram em torno de 16 ng/mL, caracterizando insuficiência ou deficiência leve a moderada.

A vitamina D subiu no exame?

Sim.

No grupo suplementado, os níveis médios alcançaram aproximadamente 32 ng/mL no dia do desencadeamento da ovulação.
No grupo placebo, permaneceram em torno de 18 ng/mL.

Ou seja, a suplementação foi eficaz para elevar os níveis séricos.

Mas houve aumento da taxa de nascimento?

Essa é a pergunta mais importante.

Taxa de nascidos vivos após a primeira transferência embrionária:

  • 52,0% no grupo vitamina D
  • 50,2% no grupo placebo

A diferença não foi estatisticamente significativa.

O risco relativo ajustado foi de 1,03, com intervalo de confiança de 0,91 a 1,18.

Em termos práticos:

A suplementação não aumentou a taxa de nascimento.

Houve impacto em aborto ou complicações gestacionais?

Não foram observadas diferenças significativas entre os grupos em relação a:

  • teste de gravidez positivo
  • gravidez clínica
  • gravidez em evolução
  • aborto espontâneo
  • diabetes gestacional
  • pré-eclâmpsia
  • prematuridade

Também não foi identificado benefício mesmo entre mulheres com níveis mais baixos no início do estudo.

O que isso significa na prática?

Esse estudo é robusto: grande número de participantes, múltiplos centros e metodologia rigorosa.

Ele demonstrou que:

✔ A vitamina D aumenta no exame
✘ Mas isso não se traduz em maior taxa de nascimento na FIV em mulheres com SOP

Isso questiona a prescrição rotineira de vitamina D com a promessa de aumentar a chance de sucesso da FIV.

Então a deficiência de vitamina D não deve ser tratada?

É importante diferenciar duas situações.

  1. Tratar deficiência por saúde geral é adequado e indicado.
  2. Prometer aumento da taxa de sucesso da FIV com base na suplementação não é sustentado por essa evidência.

O estudo não exclui totalmente a possibilidade de benefício em casos de deficiência grave (por exemplo, níveis abaixo de 10 ng/mL), mas não demonstrou benefício claro na população estudada.

A vitamina D melhora a qualidade dos óvulos?

Atualmente, não há evidência sólida de que a suplementação de vitamina D:

  • melhore a qualidade ovocitária
  • reduza taxas de aneuploidia
  • aumente taxas de implantação de forma independente

Grande parte dos dados anteriores vinha de estudos observacionais ou ensaios clínicos pequenos.

Quando um ensaio clínico randomizado de grande porte foi realizado, o efeito esperado não se confirmou.

Esse é um padrão comum na medicina baseada em evidências.

Por que estudos anteriores sugeriam benefício?

Estudos observacionais podem ser influenciados por fatores de confusão.

Mulheres com níveis mais altos de vitamina D frequentemente apresentam:

  • menor índice de massa corporal
  • melhor perfil metabólico
  • maior exposição solar
  • estilo de vida mais saudável
  • melhor adesão ao tratamento

Esses fatores podem explicar resultados aparentemente melhores, sem que a vitamina D seja a causa direta.

Somente estudos randomizados conseguem isolar esses fatores.

Conclusão para mulheres com SOP que farão FIV

Se você tem SOP e está se preparando para a fertilização in vitro:

  • Corrigir deficiência de vitamina D é apropriado para a saúde global.
  • Não há evidência consistente de que isso aumente suas chances de ter um bebê por FIV.
  • A estratégia reprodutiva deve se concentrar em protocolo adequado de estimulação, controle metabólico e qualidade laboratorial.

A medicina baseada em evidências frequentemente nos obriga a abandonar hipóteses promissoras quando não se confirmam em estudos rigorosos.

Isso não diminui a importância da vitamina D para a saúde.
Mas evita criar expectativas irreais sobre seu impacto na taxa de sucesso da FIV.

Referência

  1. Hu KL, Liao T, Wu Q, Ma X, Cao Y, Tan J, et al.; on behalf of the VitD-PCOS trial group. Vitamin D supplementation before in vitro fertilisation in women with polycystic ovary syndrome: multicentre, double blind, placebo controlled, randomised clinical trial. BMJ. 2026;392:e087438.

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