
A relação entre anabolizantes e fertilidade é um tema que desperta muitas dúvidas e gera preocupação em homens e mulheres. Se por um lado essas substâncias são amplamente utilizadas para ganho de massa muscular e aprimoramento estético, por outro, os efeitos colaterais no corpo podem ser agressivos.
E a saúde reprodutiva é uma das principais afetadas: os efeitos na libido já são abordados frequentemente, mas o que muitos desconhecem é que os esteroides anabolizantes androgênicos (EAA), conhecidos como ‘bomba’, podem causar danos severos e até irreversíveis à fertilidade.
A produção de espermatozoides, nos homens, e a qualidade dos óvulos, nas mulheres, são só alguns exemplos. Para entender mais sobre anabolizante e fertilidade, AnaMaria conversou com o ginecologista e obstetra João Guilherme Grassi, especialista em reprodução humana.
Anabolizante e fertilidade: efeitos nas mulheres
O impacto dos anabolizantes na fertilidade feminina é significativo. Além de causar distúrbios no ciclo menstrual e prejudicar a ovulação, essas substâncias podem provocar a virilização, caracterizada pelo desenvolvimento de características masculinas. As principais características são:
- Aumento do clitóris
- Engrossamento da voz
- Crescimento de pelos no rosto
Esses efeitos são consequência direta da interferência dos anabolizantes na função ovariana, comprometendo a produção de hormônios femininos essenciais para a fertilidade. O uso prolongado dessas substâncias pode levar à deterioração da qualidade dos óvulos, o que, por sua vez, dificulta uma gravidez futura.
“Ao bloquear a produção dos hormônios LH (hormônio luteinizante) e FSH (hormônio folículo-estimulante), os anabolizantes impedem que os ovários trabalhem de forma adequada, interrompendo o ciclo hormonal da mulher e, consequentemente, a ovulação”, reforça o especialista.
Anabolizante e fertilidade: efeitos nos homens
O especialista explica que os esteroides suprimem a produção natural de testosterona nos testículos ao inibir a liberação de LH e FSH pela hipófise, glândula localizada na base do cérebro e que controla a função da maioria das outras glândulas endócrinas.
“Isso leva a uma diminuição significativa na produção de espermatozoides, resultando em oligospermia (baixa contagem de espermatozoides) ou azoospermia (ausência de espermatozoides no sêmen), o que pode causar infertilidade temporária ou, em alguns casos, permanente”, ressalta o especialista.
O processo também pode gerar a atrofia dos testículos. Além disso, quanto maior o tempo de uso e a dose das substâncias, maior o risco de danos permanentes ao eixo hipotálamo-hipófise-gonadal (HPG), responsável por regular a produção de testosterona e espermatozoides.
Grassi reforça que não há doses seguras para o uso de esteroides anabolizantes e qualquer quantidade pode ser prejudicial.
É possível recuperar a fertilidade?
Tanto para homens quanto para mulheres, a interrupção do uso de anabolizantes pode levar à recuperação da fertilidade, mas o sucesso não é garantido. O tempo necessário e a extensão da reversão variam de caso a caso.
- Nos homens, a produção de espermatozoides pode começar a se recuperar de seis meses a um ano após a cessação do uso, embora alguns casos possam demorar ainda mais.
- Nas mulheres, o ciclo menstrual e a ovulação podem voltar ao normal em até 120 dias após o término do uso, dependendo do tipo de anabolizante e do tempo de exposição.
Usuários de longa data ou que utilizaram doses elevadas podem enfrentar uma recuperação parcial ou, em alguns casos, infertilidade permanente. Existem alternativas na medicina reprodutiva, como o uso de terapias com gonadotrofinas, que estimulam a produção natural de testosterona e espermatozoides nos homens, ou o congelamento de óvulos e a fertilização in vitro para mulheres.
Antes disso, é essencial ficar atento a possíveis sinais de que a fertilidade pode estar comprometida. O principal deles é a dificuldade de engravidar após um período prolongado de tentativas. Grassi enfatiza que essa dificuldade é motivo para buscar um especialista em reprodução humana.
- Nos homens, o problema pode ser identificado por meio de exames como o espermograma, que avalia a quantidade e a qualidade dos espermatozoides.
- Nas mulheres, alterações no ciclo menstrual ou ausência de ovulação são os primeiros indicativos de comprometimento da função reprodutiva. Para mulheres acima dos 35 anos, é recomendado procurar ajuda após seis meses de tentativas, ou após um ano para aquelas com menos de 35.



