Essa é uma das dúvidas mais frequentes no consultório.
Com o avanço das técnicas de congelamento de embriões, especialmente a vitrificação, surgiu uma ideia que ganhou muita força nos últimos anos:
Será que congelar todos os embriões e transferir depois (“freeze-all”) seria melhor do que transferir no mesmo ciclo?
A resposta curta é: não necessariamente. E em muitos casos, não faz diferença. Em outros, o fresco pode até ser melhor.
Vamos entender com calma.
De onde surgiu a ideia de que o congelado seria melhor?
Durante a estimulação ovariana, os níveis hormonais ficam muito elevados, principalmente o estrogênio.
Isso pode alterar a receptividade do endométrio e criar um pequeno “descompasso” entre embrião e útero.
Por isso, surgiu a estratégia de:
- estimular
- coletar os óvulos
- formar os embriões
- congelar tudo
- transferir depois, em um ciclo mais “natural”
Essa lógica faz sentido… mas não se aplica igual para todas as pacientes.
O que a melhor evidência mais recente mostrou?
Um artigo recente publicado no Fertility and Sterility (2026) analisou justamente essa questão em um grupo muito importante:
pacientes com baixa resposta ovariana
E os resultados são bastante claros:
👉 Congelar todos os embriões NÃO melhorou os resultados
- Não houve melhora nas taxas de gravidez
- Não houve melhora nas taxas de implantação
- Não houve melhora na taxa de nascidos vivos
Mais importante: o fresco pode até ser melhor
O dado mais forte do estudo veio de um ensaio clínico randomizado (o tipo de estudo mais confiável):
- Taxa de nascimento foi menor no grupo congelado
- Taxa de gravidez clínica também foi menor no grupo congelado
- Taxa cumulativa de nascimento foi menor no grupo congelado
Ou seja:
👉 Não só não houve benefício do congelamento, como houve sinal de pior resultado em alguns cenários.
Por que isso acontece?
Aqui entra uma parte importante, que raramente é explicada para os pacientes.
1. O endométrio nem sempre está “prejudicado” na estimulação
Em pacientes com baixa resposta:
- os níveis hormonais costumam ser mais baixos
- o ambiente endometrial pode ser mais fisiológico
Ou seja, aquele “problema” da estimulação muitas vezes nem existe neste grupo
2. O congelamento não é neutro
Apesar de extremamente seguro, o congelamento:
- altera metabolismo celular
- pode causar microdanos estruturais
- pode impactar o embrião em nível molecular
Na maioria dos casos isso não muda o resultado.
Mas em pacientes com poucos embriões, qualquer pequeno impacto pode fazer diferença.
Então devemos sempre transferir a fresco?
Também não.
A decisão não é “fresco vs congelado” de forma universal.
Existem situações claras onde o congelamento é melhor:
- risco de hiperestímulo ovariano (OHSS)
- endométrio inadequado
- necessidade de PGT
- condições clínicas específicas
Nesses casos, congelar é a melhor escolha.
A conclusão mais honesta (e baseada em evidência)
O que esse estudo reforça é algo muito importante:
👉 Não existe uma estratégia única que seja melhor para todas as pacientes.
Especialmente em baixa resposta:
- o congelamento NÃO melhora os resultados
- o fresco pode ser tão bom quanto ou até melhor
- individualizar a decisão é fundamental
O que isso significa na prática?
Se você está passando por uma FIV, a pergunta correta não é:
“é melhor congelar ou transferir a fresco?”
A pergunta correta é:
👉 “Qual é a melhor estratégia para o meu caso específico?”
Referência
Sun Y, Sun X, Gemzell-Danielsson K. Frozen versus fresh embryo transfer in low responders: a systematic review. Fertility and Sterility. 2026.



