Embriões aneploides

Tive apenas embriões aneuploides. Isso significa que nunca produzirei embriões normais?

Essa é uma das situações que mais assustam.

Receber o resultado do PGT-A mostrando que todos os embriões são aneuploides gera uma sensação imediata de impotência.

Meu corpo não consegue fazer embriões normais.
Há algo estruturalmente errado comigo.
Nunca vou conseguir.

Mas essa conclusão raramente é sustentada pela biologia e pela estatística.

Vamos entender com calma.

1. Aneuploidia é comum e esperada

Aneuploidia não é uma exceção na espécie humana. É frequente.

Mesmo em idades mais jovens, uma parte relevante dos embriões será aneuploide. Em uma grande coorte de embriões avaliados por PGT-A, a proporção média de embriões euploides por ciclo em mulheres entre 27 e 35 anos ficou em torno de 55%, com queda progressiva após os 35 anos¹.

Ou seja, mesmo em idades jovens, cerca de metade dos embriões pode não ser cromossomicamente normal.

Produzir embriões aneuploides faz parte da biologia da reprodução humana.

Não é sinal automático de doença.

2. Chances reais de euploide por idade

É importante separar duas perguntas diferentes:

A) Qual a chance de um embrião ser euploide?

A taxa de euploidia diminui de forma progressiva com o aumento da idade materna, especialmente após os 35 anos¹,². Aos 40 anos, mais de 60% dos blastocistos já podem apresentar aneuploidia², e após os 42 anos essa proporção pode ultrapassar 75%².

Ou seja, com o avanço da idade, produzir embriões aneuploides torna-se progressivamente mais provável.

B) Qual a chance de ter pelo menos 1 euploide no ciclo?

Essa probabilidade depende não apenas da idade, mas também do número de blastocistos obtidos.

No estudo de Demko et al.¹, a chance de obter ao menos um embrião euploide no ciclo (probabilidade cumulativa por ciclo) foi aproximadamente:

  • 85% aos 35 anos
  • 75% aos 40 anos
  • 45% aos 44 anos

Perceba o ponto central: mesmo com queda importante, ainda há probabilidade real. Um ciclo específico pode resultar em 0 euploides mesmo quando a chance média populacional é razoável.

3. Por que a aneuploidia aumenta com a idade?

Com o avanço da idade, ocorre perda progressiva da proteção das coesinas — proteínas responsáveis por manter os cromossomos adequadamente alinhados durante a divisão celular. Esse enfraquecimento aumenta o risco de erros na meiose³.

Isso não é falha pessoal.
É biologia do envelhecimento ovariano.

4. Um ciclo totalmente aneuploide não define seu futuro

Esse ponto é crucial.

No estudo de Herlihy et al.⁴, mulheres que tiveram um primeiro ciclo com 100% de blastocistos aneuploides ainda apresentaram, no ciclo seguinte, probabilidade significativa de obter ao menos um embrião euploide:

  • <35 anos: cerca de 81% obtiveram pelo menos 1 euploide no segundo ciclo
  • 35–37 anos: cerca de 82%
  • A chance reduziu progressivamente com a idade, chegando a aproximadamente 25% em mulheres acima de 42 anos⁴

Isso mostra que um primeiro ciclo 100% aneuploide não significa incapacidade permanente de produzir embriões normais.

5. Pequenas amostras aumentam a variabilidade

Se uma paciente produz dois blastocistos e ambos são aneuploides, isso é estatisticamente muito diferente de produzir dez e todos serem aneuploides.

Quanto menor o número de embriões avaliados, maior a chance de resultados extremos apenas por acaso.

Pequenas amostras variam mais.

Isso é estatística básica aplicada à reprodução humana.

6. E se vários ciclos forem aneuploides?

Aqui entra a conversa honesta.

A idade impõe limites biológicos reais. Estudos demonstram aumento exponencial da taxa de aneuploidia com o avanço da idade².

Ainda assim, mesmo após um ciclo totalmente aneuploide, muitas pacientes conseguem embriões euploides em ciclos subsequentes, desde que haja reserva ovariana suficiente⁴.

A taxa de nascimento vivo cumulativa após nova tentativa caiu com a idade, mas não foi nula:

  • 71% (<35 anos)
  • 62% (35–37 anos)
  • 46% (38–40 anos)
  • 27% (41–42 anos)
  • 13% (>42 anos)⁴

Esses números ajudam a transformar medo em planejamento realista.

7. E quanto à acurácia do PGT-A?

Nenhum teste diagnóstico é perfeito.

Estudos contemporâneos mostram alta acurácia do PGT-A, mas não absoluta. Existe margem analítica e questões envolvendo mosaicismo que reforçam que estamos lidando com probabilidade biológica, não com determinismo absoluto⁵.

Isso não significa transferir aneuploides rotineiramente.

Significa apenas reconhecer que o teste é uma ferramenta poderosa, porém não infalível.

8. Ter apenas aneuploides significa que tenho um problema oculto?

Na maioria das vezes, não.

Especialmente acima dos 37–38 anos, a principal explicação é o envelhecimento oocitário fisiológico²,³.

Rearranjos cromossômicos parentais são raros e geralmente suspeitados quando há padrão repetitivo específico.

Na maioria dos casos, o que está presente é probabilidade estatística associada à idade.

9. A mensagem final

Produzir embriões aneuploides faz parte da biologia humana.

Ter um ciclo inteiro com aneuploides não define seu potencial reprodutivo global.

Não significa falha definitiva.
Não significa defeito pessoal.

Significa que estamos lidando com:

  • Probabilidade
  • Biologia do envelhecimento
  • Número limitado de embriões avaliados

E muitas vezes, o embrião euploide aparece no ciclo seguinte.

Referências

  1. Demko Z, Simon AL, McCoy RC, Petrov DA, Rabinowitz M. Effects of maternal age on euploidy rates in a large cohort of embryos analyzed with 24-chromosome single-nucleotide polymorphism–based preimplantation genetic screening. Fertil Steril. 2016.
  2. Demko ZP, et al. Age-specific rate of euploid blastocysts in women undergoing PGT-A. Fertil Steril. 2016.
  3. Mihalas BP, et al. Age-dependent loss of cohesion protection in human oocytes. Nat Commun. 2024.
  4. Herlihy NS, et al. The chances of obtaining a euploid embryo and subsequent live birth remain consistent with national age-based rates following a cycle with no euploid embryos. J Assist Reprod Genet. 2022.
  5. Capalbo A, et al. Ongoing surveillance of analytical platforms in preimplantation genetic testing: phase 4 evaluation. 2025.

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