Nos últimos 30 anos, a medicina reprodutiva passou por transformações profundas. Uma das maiores inovações foi a possibilidade de analisar embriões antes da transferência para o útero — prática conhecida como testagem ou diagnóstico pré-implantacional. Essa análise pode incluir desde avaliação morfológica simples até sequenciamento genético completo. Mas, apesar dos avanços tecnológicos, nem toda inovação chega ao consultório com a mesma solidez científica.
Essa é uma conversa que merece clareza: testes embrionários podem trazer benefícios, mas também carregam limitações e riscos reais — e o impacto para cada casal deve ser avaliado com responsabilidade, sem promessas exageradas nem simplificações indevidas.
Quatro etapas fundamentais para que um teste seja confiável
Antes de um teste ser incorporado à prática clínica, ele deveria passar por fases estruturadas de validação, assim como ocorre com medicamentos. Isso garante não apenas que ele funcione tecnicamente, mas que melhore de fato as chances de gravidez saudável.
| Fase 1 | Validação analítica | Avalia se o teste mede com precisão e consistência aquilo que se propõe a medir. Isso inclui verificar taxas de erro, limites de detecção e reprodutibilidade entre laboratórios |
| Fase 2 | Validação clínica | Determina se os resultados do teste realmente se correlacionam com desfechos clínicos, como implantação e nascimento com saúd |
| Fase 3 | Ensaios clínicos randomizados | Mostram se o uso do teste melhora os resultados clínicos em comparação ao tratamento padrão |
| Fase 4 | Monitoramento contínuo | Uma vez em uso, os laboratórios e clínicas devem manter vigilância permanente da qualidade, detectando falhas, atualizando protocolos e garantindo a segurança dos pacientes |
Na prática, porém, muitos testes foram introduzidos no mercado antes de completarem essas etapas — inclusive versões modernas do PGT-A (teste genético pré-implantacional para aneuploidias), hoje amplamente utilizado
A questão da “viabilidade”: palavras importam
Um dos conceitos mais importantes — e frequentemente mal interpretados — é o de “viabilidade embrionária”. Muitas vezes, o termo é usado de forma simplificada para descrever se um embrião “serve” ou “não serve” para transferência. Na realidade, isso mascara uma complexidade biológica muito maior.
- Um embrião morfologicamente bonito não é necessariamente cromossomicamente normal.
- Um embrião com alterações detectadas em testes genéticos pode, em alguns casos, ainda ter potencial de gerar uma gestação saudável.
- A ideia de que um embrião é “viável” ou “inviável” cria expectativas rígidas e muitas vezes não reflete a incerteza real envolvida
Por isso, é essencial que a comunicação entre médicos, embriologistas e pacientes seja precisa, evitando linguagem que induza a falsas certezas.
Benefícios reais dos testes genéticos pré-implantacionais
Para alguns pacientes, especialmente aqueles com maior risco genético, o uso de testes pode trazer benefícios claros:
- PGT-M: permite identificar embriões portadores de mutações monogênicas (ex.: fibrose cística, doenças ligadas ao X). Isso reduz significativamente o risco de transmitir doenças hereditárias graves
- PGT-SR: auxilia casais com alterações cromossômicas estruturais (translocações ou inversões) a selecionar embriões com menor risco de aborto espontâneo ou doenças genéticas graves
- PGT-A, em contextos bem selecionados, pode encurtar o tempo até a gestação ao priorizar embriões cromossomicamente normais para transferência
Em grupos específicos (como pacientes com idade materna avançada ou grande número de embriões disponíveis), esses benefícios podem ser mais relevantes.

Limitações e riscos que precisam ser ditos com clareza
Apesar dos avanços, a evidência científica atual não demonstra um benefício universal do PGT-A para todos os pacientes. Entre as principais limitações:
- Descartes indevidos de embriões potencialmente saudáveis: o fenômeno do mosaicismo (mistura de células normais e anormais em um mesmo embrião) pode levar a falsos positivos, fazendo com que embriões viáveis sejam descartados
- Efeito da manipulação no laboratório: procedimentos como biópsia e criopreservação aumentam a complexidade do ciclo e podem, em alguns casos, impactar negativamente os resultados
- Falta de evidência robusta em muitos grupos de pacientes: grande parte dos estudos foi feita com mulheres jovens e bom prognóstico, não refletindo a realidade de todos os casais
- Falta de padronização entre laboratórios: plataformas comerciais têm protocolos e limiares de interpretação diferentes, o que gera variabilidade nos resultados
Em resumo: embora possa ser útil em situações específicas, o PGT-A não é um atalho garantido para a gravidez — e seu uso deve ser individualizado, com base em indicação clara.
Segurança a curto e longo prazo: o que sabemos
Os dados atuais não mostram aumento relevante de riscos obstétricos ou neonatais diretamente atribuídos ao PGT-A. No entanto, as evidências são limitadas, com variação metodológica importante entre estudos, populações selecionadas e follow-up curto em muitos casos. Avaliar segurança em longo prazo — incluindo saúde infantil, cognitiva e metabólica — requer estudos mais extensos
Além disso, os riscos não são nulos. Manipulações adicionais, como a biópsia embrionária, podem impactar alguns embriões. Ensaios randomizados mostraram queda significativa de taxa de implantação em embriões biopsiados no estágio de clivagem (dia 3), enquanto no estágio de blastocisto (dia 5/6), essa queda foi muito menor, mas ainda existente
Ética e responsabilidade: escolher não é o mesmo que “melhorar”
Os avanços atuais incluem até sequenciamento genômico completo de embriões, com promessas de prever riscos para doenças complexas. Essa abordagem, ainda altamente experimental e sem comprovação clínica robusta, levanta dilemas éticos profundos:
- Qual é a fronteira entre prevenir doenças graves e selecionar características desejáveis?
- Quem define o que significa ter “a melhor vida”?
- Como evitar que decisões médicas e reprodutivas reforcem desigualdades sociais ou preconceitos?
Essas questões mostram que nem toda possibilidade tecnológica equivale a uma indicação clínica legítima.
Em resumo: como tomar decisões mais conscientes
- Avalie com clareza a indicação — Testes embrionários devem ser usados quando há justificativa clínica sólida.
- Pergunte sobre evidências — Nem todo teste disponível tem comprovação de benefício para o seu caso.
- Entenda as limitações — Todo resultado tem margens de incerteza e interpretação.
- Considere os riscos e custos adicionais — Financeiros, clínicos e emocionais.
- Exija transparência — Os laboratórios e clínicas devem fornecer dados claros sobre a acurácia e as limitações do método utilizado.
- Mantenha o foco no objetivo final — O nascimento de uma criança saudável, e não apenas “o embrião perfeito”.
Conclusão
Os testes embrionários representam um avanço notável na medicina reprodutiva, mas não são uma solução universal nem isenta de incertezas. O uso ético e responsável dessas tecnologias requer indicação clínica criteriosa, transparência com os pacientes, e compromisso com evidências científicas de qualidade.
O papel do médico é guiar com honestidade, oferecendo informação precisa e equilibrada — sem promessas simplistas, mas com respeito à autonomia de cada casal para tomar decisões conscientes.



