A incorporação de testes genéticos na reprodução assistida evoluiu de forma significativa nas últimas três décadas. O PGT-M consolidou-se como ferramenta diagnóstica para doenças monogênicas de alta penetrância. Mais recentemente, surgiu o PGT-P, também chamado de polygenic embryo screening (PES), proposta que utiliza escores de risco poligênico para estimar a probabilidade futura de doenças complexas em embriões obtidos por fertilização in vitro (FIV).
Apesar do interesse crescente de pacientes e da oferta comercial por algumas empresas, a literatura científica recente converge para uma posição cautelosa. Três publicações centrais ajudam a organizar essa discussão: a revisão técnica e epidemiológica de Capalbo et al. (2024) [1], a análise ética-regulatória de Haining et al. (2024) [2] e o editorial crítico de Dokras e Gracia (2026) [3].
O que é o PGT-P
O PGT-P utiliza polygenic risk scores (PRS), que combinam milhares de variantes genéticas comuns identificadas por estudos de associação genômica ampla (GWAS). Cada variante tem efeito pequeno, mas somadas produzem uma estimativa probabilística de risco para doenças complexas, como:
- Doença arterial coronariana
- Diabetes tipo 2
- Câncer de mama
- Esquizofrenia
- Doença de Crohn
Diferentemente do PGT-M, que identifica uma variante patogênica específica com alto risco preditivo, o PGT-P não estabelece diagnóstico. Ele apenas compara embriões entre si, ranqueando-os segundo estimativa relativa de risco [1,3].
Um embrião classificado como “baixo risco” não está livre da doença. Um embrião com PRS mais alto pode nascer saudável. Trata-se de probabilidade relativa entre irmãos, não de previsão determinística [1].
O que o PGT-P propõe
A proposta central é a seguinte: ao escolher, dentre um grupo de embriões disponíveis, aquele com menor PRS para determinada condição, seria possível reduzir o risco futuro da criança desenvolver aquela doença.
Modelos matemáticos citados por Capalbo et al. sugerem que a redução relativa de risco pode alcançar 15% a 50% para algumas doenças específicas quando se seleciona o embrião de menor risco dentro de uma coorte de irmãos [1].
Entretanto, é essencial distinguir redução relativa de redução absoluta.
Por exemplo, para uma doença com prevalência de 1%, uma redução relativa de 50% significa que o risco estimado cairia para 0,5%. A redução absoluta é de apenas 0,5 ponto percentual. O número necessário de casais para evitar um único caso pode ser elevado, dependendo da condição [1].
Além disso, tais estimativas assumem premissas que nem sempre refletem o mundo real, como:
- Número fixo e suficiente de embriões disponíveis
- Transferência bem-sucedida do embrião selecionado
- Estabilidade do efeito dos PRS ao longo das próximas décadas
Esses pressupostos tendem a superestimar o benefício teórico [1].
Quais benefícios são sugeridos
Segundo a revisão técnica [1], o benefício potencial depende de três fatores principais:
- Número de embriões disponíveis
- Acurácia do PRS para aquela doença
- Prevalência da condição na população
A seleção pelo menor PRS entre múltiplos embriões pode gerar reduções relativas consistentes em modelos estatísticos [1].
Haining et al. reconhecem que, em teoria, existe potencial matemático de redução de risco, sobretudo quando aplicado de forma suplementar em casais que já realizariam FIV por infertilidade [2].
Entretanto, nenhum estudo clínico prospectivo demonstrou redução real de incidência de doença em indivíduos nascidos após seleção por PRS. Não há ensaios clínicos randomizados, nem seguimento longitudinal que comprove benefício clínico concreto [1–3].
Principais limitações técnicas e clínicas
1. Natureza probabilística e ausência de limiar clínico
Não existe ponto de corte consensual que defina quando um risco estimado justifica seleção embrionária. PRS oferecem distribuição contínua de risco, não categorias diagnósticas [1,3].
2. Acurácia limitada
PRS explicam apenas fração parcial da herdabilidade de doenças complexas. Fatores ambientais e interações gene-ambiente permanecem determinantes [1].
3. Generalização restrita
Grande parte dos GWAS foi realizada em populações de ancestralidade europeia. O desempenho dos PRS é significativamente inferior em outras populações, ampliando risco de desigualdade [1–3].
4. Dependência do número de embriões
Quanto menor o número de embriões disponíveis, menor o benefício potencial. Em pacientes com idade materna avançada ou baixa resposta ovariana, o impacto teórico é ainda mais reduzido [1].
5. Ausência de validação prospectiva
Não é possível, no momento, demonstrar empiricamente que a adoção de PGT-P reduz carga de doença na população. As estimativas são baseadas em modelagem estatística ou bancos de dados de adultos já nascidos [1].
Principais preocupações éticas
1. Risco de sobrepromessa comercial
Quando probabilidades populacionais passam a ser comunicadas como se fossem garantias individuais, cria-se uma distorção perigosa. A redução relativa de risco, que é um conceito estatístico, pode ser percebida pelo paciente como proteção concreta. Essa diferença entre linguagem técnica e percepção prática pode alimentar expectativas irreais, gerar falsa segurança e influenciar decisões reprodutivas sob premissas imprecisas.
2. Autonomia sob informação complexa
A autonomia reprodutiva pressupõe compreensão adequada da informação recebida. No caso dos escores poligênicos, trata-se de dados probabilísticos, multifatoriais e dependentes de contexto populacional. Se os limites metodológicos não forem plenamente entendidos, o que se apresenta como ampliação de escolha pode, na prática, transformar-se em uma ilusão de controle sobre eventos biologicamente imprevisíveis.
3. Ampliação de desigualdades
O acesso ao PGT-P é restrito por custo elevado, o que limita sua disponibilidade a grupos socioeconômicos específicos. Além disso, como grande parte dos bancos genômicos que fundamentam os escores é composta por indivíduos de ancestralidade europeia, a performance do teste tende a ser inferior em outras populações. Isso cria uma dupla assimetria: financeira e técnica.
4. Seleção por múltiplas condições e traços
A aplicação inicialmente direcionada à redução de risco de doenças pode abrir espaço para expansão progressiva do escopo de uso. À medida que se amplia a lista de condições avaliadas ou se considera incluir características não médicas, emergem questionamentos sobre pressões sociais por otimização genética, definição de normalidade e impacto coletivo de escolhas privadas repetidas em larga escala.
5. Uso não suplementar
Há diferença relevante entre aplicar essa tecnologia em casais que já realizariam fertilização in vitro por infertilidade e utilizá-la como justificativa primária para iniciar um ciclo de FIV com finalidade exclusivamente seletiva. No segundo cenário, a exposição a procedimentos invasivos, custos e potenciais riscos precisa ser cuidadosamente ponderada frente a um benefício estatístico que, em muitos casos, é modesto.
6. Consenso institucional atual
As principais sociedades científicas da área reconhecem que os dados disponíveis ainda não permitem recomendar a adoção clínica rotineira dessa tecnologia fora de protocolos de pesquisa. A ausência de validação prospectiva, de diretrizes consolidadas e de demonstração clara de benefício clínico sustentado reforça a necessidade de cautela antes de sua incorporação ampla à prática assistencial.
Em resumo:
- Existe potencial matemático de redução de risco.
- A magnitude absoluta do benefício tende a ser pequena para muitas doenças.
- Não há validação clínica prospectiva.
- A evidência atual não sustenta adoção rotineira ampla.
- A cautela regulatória é recomendada.
Conclusão
O PGT-P é frequentemente apresentado como um avanço sofisticado da genética aplicada à reprodução. No entanto, no estágio atual da ciência, trata-se de uma extrapolação estatística ainda não validada clinicamente como estratégia efetiva de redução real de doença.
Os benefícios sugeridos derivam de modelos matemáticos baseados em risco relativo populacional. Não há demonstração prospectiva de redução concreta de incidência de doença em indivíduos nascidos após seleção por PRS. Não há ensaios clínicos randomizados. Não há evidência longitudinal robusta. O que existe são projeções.
Além disso, os ganhos absolutos, quando analisados com rigor epidemiológico, são frequentemente pequenos, especialmente para doenças de baixa prevalência. A magnitude do efeito depende de premissas idealizadas que raramente se replicam na prática clínica real.
Enquanto isso, a tecnologia já começa a ser ofertada comercialmente como se representasse uma estratégia consolidada de prevenção. Essa antecipação da prática em relação à evidência é cientificamente frágil e eticamente delicada.
Selecionar embriões com base em diferenças probabilísticas modestas não é uma decisão técnica trivial. É uma escolha irreversível, com impacto individual e potencial repercussão social. A história da ficção científica nos oferece metáforas poderosas. No filme Gattaca, de Andrew Niccol, a promessa de aperfeiçoamento genético constrói uma sociedade em que o valor do indivíduo é reduzido ao seu perfil biológico. Embora estejamos muito distantes daquele cenário, a reflexão permanece atual: quando transformamos risco estatístico em critério seletivo, precisamos ter clareza absoluta sobre o que estamos fazendo, por quê e com quais evidências.
Expandir o uso do PGT-P antes de demonstração clara de benefício clínico concreto significa transformar incerteza estatística em intervenção reprodutiva definitiva.
Diante do estado atual do conhecimento, a incorporação rotineira do PGT-P à prática clínica não encontra sustentação robusta na evidência científica disponível. O caminho responsável é restringir sua aplicação ao contexto de pesquisa supervisionada, exigir transparência absoluta na comunicação de limitações e promover debate ético amplo antes de qualquer normalização dessa prática.
Inovação em medicina não pode preceder validação. E quando o objeto da decisão é um embrião humano, a exigência de prudência deve ser ainda maior.
Referências
- Capalbo A, et al. Screening embryos for polygenic disease risk: a review of epidemiological, clinical, and ethical considerations. Hum Reprod Update. 2024;30(5):529–557.
- Haining CM, Savulescu J, Keogh L, Schaefer GO. Polygenic risk scores and embryonic screening: considerations for regulation. J Med Ethics. 2024;51:718–727.
- Dokras A, Gracia C. Don’t let hype outrun evidence: why PGT-P shouldn’t be rushed into clinics. Fertil Steril. 2026;S0015-0282(26)00120-2.



