
Grupos no Facebook dedicados à chamada “inseminação caseira” têm reunido milhares de mulheres que desejam engravidar e homens dispostos a atuar como doadores de sêmen. Esse fenômeno, cada vez mais frequente nas redes sociais, expõe um importante problema de saúde pública no Brasil.
Como funcionam os grupos e por que atraem tantas mulheres
Alguns desses grupos chegam a 45 mil membros.
Entre as publicações mais comuns estão:
- Mulheres perguntando se há doadores disponíveis em sua cidade;
- Homens descrevendo seu biotipo (cor de cabelo, olhos, altura etc.);
- Anúncios de fotos e supostos “exames atualizados”;
- Postagens de doadores exibindo fotos de bebês que teriam nascido após o procedimento caseiro.
Muitas famílias recorrem à prática por não terem condições financeiras de pagar um tratamento em clínicas especializadas de reprodução assistida.
Os riscos da inseminação caseira segundo especialistas
De acordo com o médico especialista em reprodução humana Dr. João Guilherme Grassi, a prática oferece diversos riscos à saúde das mulheres:
“Quando a inseminação caseira ocorre, não é possível saber a procedência do sêmen. A tentativa pode não funcionar. A mulher não tem segurança garantida e pode contrair diferentes tipos de hepatite, como B e C, ou até HIV. Outro risco é a perfuração do colo do útero.”
Além disso, sem ambiente hospitalar, os materiais utilizados podem levar a contaminação, infecções e falhas na técnica.


Posição do Conselho Federal de Medicina (CFM)
A prática não é recomendada pelo CFM.
Isso ocorre principalmente pela ausência de:
- controle sanitário,
- exames obrigatórios,
- garantias de biossegurança,
- rastreabilidade do material genético.
O risco jurídico: doador pode reivindicar paternidade
O advogado especialista Arthur Strozzi, do escritório Strozzi, Daguer e Calixto Advogados, alerta para outro problema pouco discutido: o vínculo jurídico.
Sem o anonimato garantido pelas clínicas de reprodução humana:
- um doador pode pedir reconhecimento de paternidade;
- pode haver obrigação alimentar;
- existe responsabilidade parental;
- e há consequências sucessórias (herança).
A falta de regulamentação clara coloca mães e crianças em zona de vulnerabilidade jurídica.
Debate sobre desigualdade e decisões recentes da Justiça
O advogado lembra que o tema envolve também desigualdade social:
“Se todas as pessoas tivessem condições econômicas, fariam o procedimento em clínica. Mas muitos não conseguem arcar com os custos.”
Ele destaca ainda decisão recente do Superior Tribunal de Justiça (STJ):
A Corte reconheceu a possibilidade de registro de dupla maternidade em caso de inseminação heteróloga caseira.
A ministra Nancy Andrighi afirmou que:
- a ausência de regulamentação não pode restringir direitos de crianças e adolescentes;
- o melhor interesse da criança deve orientar a lei;
- e os altos custos dos tratamentos não podem excluir famílias de seus direitos.
Afinal, a inseminação caseira é crime?
Não.
Apesar de ser desaconselhada pelas entidades médicas e representar riscos sanitários e jurídicos, a prática não é considerada crime no Brasil.
Porém, por ocorrer à margem das normas legais, praticamente não há respaldo jurídico para conflitos futuros.
Fonte:
https://www.bonde.com.br/bondenews/grupos-no-facebook-promovem-inseminacao-caseira-e-geram-polemica-nas-redes-sociais



