A endometrite crônica se tornou um dos temas mais discutidos na reprodução assistida nos últimos anos. Muitas pacientes chegam ao consultório já com esse diagnóstico ou com dúvidas sobre ele, especialmente após falhas em tratamentos como a fertilização in vitro (FIV).
Mas existe uma pergunta fundamental que precisa ser feita com honestidade:
A endometrite crônica é realmente uma doença bem definida ou, em muitos casos, estamos diante de um achado inespecífico que pode não ter impacto real na fertilidade?
Vamos entender isso com calma.
O que é endometrite crônica?
De forma simples, a endometrite crônica é descrita como uma inflamação leve e persistente do endométrio (o tecido que reveste o útero).
Diferente da endometrite aguda, que causa sintomas claros como dor e febre, a forma crônica geralmente:
- não causa sintomas
- ou causa sintomas muito inespecíficos
Por isso, ela só costuma ser diagnosticada por exames.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é feito por uma biópsia do endométrio, analisada no microscópio.
O principal critério utilizado hoje é a presença de células chamadas plasmócitos, identificadas por um marcador chamado CD138.
Na prática, o laudo pode dizer algo como:
- “CD138 positivo”
- “presença de plasmócitos no endométrio”
E isso costuma ser interpretado como endometrite crônica.
Mas aqui começa o problema…
O que poucos sabem:
👉 o CD138 não é um marcador específico de doença
Estudos mais recentes mostram que:
- o CD138 pode estar presente no endométrio normal
- ele varia ao longo do ciclo menstrual
- ele pode aparecer em células que nem são inflamatórias
Ou seja:
nem todo CD138 positivo significa infecção ou inflamação relevante
CD138 significa infecção?
Essa é uma das maiores dúvidas.
Durante muito tempo, acreditou-se que a endometrite crônica fosse causada por bactérias no útero.
Mas estudos recentes avaliaram isso de forma mais profunda, analisando o microbioma (as bactérias) do trato reprodutivo.
👉 Resultado:
não foi encontrada relação consistente entre CD138 e presença de bactérias anormais
Ou seja:
não há evidência clara de que o achado representa uma infecção ativa na maioria dos casos
Qualquer quantidade de plasmócitos é importante?
Aqui está outro ponto fundamental.
Estudos mostram que:
- mulheres com 1 a 4 plasmócitos têm resultados reprodutivos semelhantes às mulheres sem nenhum plasmócito
- apenas casos com maior quantidade (ex: ≥5) parecem ter alguma associação com piores desfechos
E mais importante:
👉 tratar casos leves não melhora as chances de gravidez
Endometrite crônica reduz as chances de implantação?
A resposta mais honesta é:
👉 depende do contexto
Em alguns grupos específicos, como:
- falha de implantação recorrente
- perdas gestacionais repetidas
pode haver associação com piores resultados.
Mas na população geral:
- não há evidência consistente de que a endometrite crônica reduza as taxas de gravidez
- nem de que trata melhore os resultados
Tratar sempre resolve?
Essa é talvez a parte mais importante.
Um estudo recente e bem conduzido comparou:
- pacientes com endometrite leve tratadas com antibiótico
- pacientes não tratadas
👉 Resultado:
não houve melhora nas taxas de gravidez ou nascidos vivos com o tratamento
Isso levanta uma pergunta inevitável:
se tratar não melhora o resultado, o que estamos tratando?
Então o que o CD138 realmente pode estar mostrando?
Uma das descobertas mais interessantes dos estudos recentes é que:
👉 o CD138 pode estar mais relacionado ao timing do endométrio do que à infecção
Ou seja:
- ele pode refletir um endométrio “fora de fase”
- ou um ambiente endometrial imaturo
E não necessariamente uma doença infecciosa.
A endometrite crônica realmente existe?
A resposta mais honesta hoje é:
👉 provavelmente em raros casos… mas não em todos
O que a ciência atual sugere é que:
- existem situações em que há uma alteração real do endométrio
- mas também existem muitos casos em que:
- o diagnóstico é baseado em critérios imprecisos
- o achado é inespecífico
- e não há impacto clínico relevante
O grande risco: o excesso de diagnóstico
Quando usamos critérios muito amplos, acontece algo importante:
👉 muitas mulheres passam a receber um diagnóstico que pode não representar uma doença real
Isso pode levar a:
- uso desnecessário de antibióticos
- atraso no tratamento reprodutivo
- aumento da ansiedade
- custos adicionais
- indução de resistência bacteriana
Então quando investigar?
A melhor evidência atual sugere:
👉 não investigar de rotina em todas as pacientes
A investigação pode ser considerada principalmente em casos como:
- falhas repetidas de implantação
- perdas gestacionais recorrentes
- achados suspeitos na histeroscopia
E ainda assim interpretar o resultado com muita cautela e com a consciência de que as evidencias demonstrar que provavelmente não tem nenhuma relação com as dificuldades reprodutivas.
O que realmente importa
Mais importante do que encontrar plasmócitos no endométrio é responder:
- isso está realmente impactando o seu caso?
- tratar isso vai mudar o desfecho?
Nem sempre a resposta é “sim”.
Mas sempre tem aquele caso que aparece na consulta ou nas redes sociais:
“Doutor, no meu caso eu fiz 3 FIVs sem positivo… só consegui engravidar depois que descobri e tratei a endometrite.”
E isso é totalmente compreensível. Quando algo dá certo depois de uma intervenção, é natural associar uma coisa à outra.
Mas aqui entra um conceito muito importante, que raramente é explicado de forma clara: probabilidade acumulada.
Na reprodução assistida, cada tentativa tem uma chance própria de sucesso. Mesmo em condições ideais, essa chance não é 100%. Isso significa que, muitas vezes, o positivo não vem na primeira, nem na segunda tentativa… mas pode vir na terceira, na quarta.
Ou seja:
👉 o fato de ter dado certo depois de tratar algo não prova que foi o tratamento que causou o sucesso
Na prática, o que acontece na maioria dos casos é uma combinação de fatores:
- persistência ao longo das tentativas
- seleção progressiva de embriões com melhor potencial
- até chegar ao embrião com maior chance de implantação
Esse ponto é fundamental:
👉 nem todo embrião tem a mesma capacidade de gerar uma gestação
Mesmo em um mesmo ciclo, alguns embriões simplesmente não vão ser implantados. Outros vão.
Então, quando a gravidez acontece depois de algumas tentativas, muitas vezes isso está muito mais relacionado a:
- ter chegado ao embrião certo
- no momento certo
do que necessariamente a uma intervenção específica feita no meio do caminho.
Isso não significa que a investigação não tenha valor em alguns casos selecionados.
Mas significa que precisamos tomar cuidado com uma conclusão muito comum e intuitiva:
👉 “tratei isso e depois deu certo, então era isso o problema”
Na medicina, essa relação nem sempre é tão direta assim.
E entender isso é importante para evitar:
- tratamentos desnecessários
- frustração
- e expectativas irreais
No final, a reprodução assistida muitas vezes é menos sobre “corrigir um único problema” e mais sobre persistir até que todos os fatores se alinhem — especialmente o embrião certo.
Conclusão
A endometrite crônica é um conceito em evolução.
Hoje sabemos que:
- o diagnóstico não é padronizado
- o marcador (CD138) não é específico
- nem todo achado tem relevância clínica
- e o tratamento nem sempre traz benefício
Por isso, a abordagem mais segura e baseada em evidência é:
👉 individualizar cada caso e evitar intervenções desnecessárias
Referências
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