Essa é uma das perguntas mais difíceis que escuto no consultório.
Quando fazemos PGT-A e o resultado mostra que o embrião é euploide, a expectativa sobe naturalmente. Se os cromossomos estão corretos, por que não implantou?
A resposta começa com um ponto fundamental:
Euploide não significa garantia.
Significa probabilidade maior.
Reprodução humana nunca foi determinística. Sempre foi probabilística.
1. O que o PGT-A realmente avalia
O PGT-A analisa o número de cromossomos do embrião.
Sabemos que a principal causa de falha de implantação e aborto espontâneo é a aneuploidia, que aumenta progressivamente com a idade materna.
Mas o teste responde apenas a uma pergunta específica:
Esse embrião tem o número correto de cromossomos?
Ele não avalia:
- função mitocondrial
- metabolismo celular
- expressão gênica
- epigenética
- organização citosquelética
- interação molecular entre embrião e endométrio
Ou seja, ele remove um grande fator de risco.
Mas não mede toda a complexidade biológica envolvida na implantação.
2. Mesmo embriões euploides não implantam em 100% das vezes
Grandes estudos mostram que a taxa de implantação de embriões euploides gira em torno de 60 a 70% por transferência.
Isso significa que 30 a 40% não implantam naquela tentativa específica.
Isso não é erro. É biologia.
Se a taxa média for 65%, por exemplo, é matematicamente esperado que algumas pacientes tenham duas falhas consecutivas apenas pela probabilidade.
E quando analisamos até três transferências consecutivas de embriões euploides em úteros estruturalmente normais, a taxa cumulativa de nascimento vivo ultrapassa 90% (Pirtea et al., 2020).
Isso mostra que a chamada “falha de implantação recorrente verdadeira” é rara nesse cenário.
3. A idade importa mesmo após o PGT-A
Existe uma ideia difundida de que, uma vez que o embrião é euploide, a idade deixa de ter relevância.
Não é exatamente assim.
O estudo de Reig et al. (2020) analisou 8.175 transferências únicas de embriões euploides e avaliou diretamente a taxa de nascimento vivo conforme a idade da paciente no momento da coleta.
Os resultados mostraram redução progressiva na taxa de nascido vivo mesmo entre embriões já classificados como euploides:
- <35 anos: cerca de 64–65% de nascimento vivo por transferência
- 35–37 anos: aproximadamente 62–63%
- 38–40 anos: em torno de 56–57%
- 41–42 anos: cerca de 49–50%
- ≥42 anos: aproximadamente 45%
Mesmo após ajuste para qualidade morfológica do blastocisto e níveis de AMH, essa redução permaneceu significativa.
Isso significa que controlar cromossomos não elimina completamente o impacto biológico da idade.
O próprio estudo sugere que a maior parte da diferença ocorre antes ou no momento da implantação. Uma vez que a gestação se estabelece, a progressão tende a ser semelhante entre as faixas etárias.
Portanto:
- Aneuploidia explica grande parte da queda da fertilidade com o passar dos anos.
- Mas não explica tudo.
Existem fatores ligados ao envelhecimento oocitário que vão além da contagem cromossômica — possivelmente mecanismos moleculares, metabólicos ou epigenéticos que ainda não conseguimos medir diretamente.
O PGT-A reduz significativamente o impacto da idade.
Mas não o elimina completamente.
4. O útero é o principal problema?
Na maioria das vezes, não.
Se a falha repetida fosse causada por um defeito uterino fixo, veríamos queda progressiva nas taxas a cada nova tentativa.
Isso não é o que as grandes coortes mostram.
Os dados cumulativos indicam que a chance total de sucesso continua aumentando com novas transferências de embriões euploides.
Em pacientes com cavidade uterina normal e preparo adequado, a refratariedade endometrial verdadeira parece ser incomum.
5. Existem fatores além dos cromossomos?
Sim. E aqui entra a honestidade científica.
A implantação é um processo extremamente sofisticado. O embrião precisa:
- ativar milhares de genes no momento correto
- ter metabolismo energético adequado
- organizar sua estrutura celular corretamente
- modular sinais imunológicos locais
- estabelecer comunicação eficaz com o endométrio
Estudos de transcriptômica mostram que embriões euploides que não aderem apresentam diferenças em vias relacionadas à adesão celular, ribossomos e função mitocondrial.
Ou seja, cromossomos normais não garantem funcionamento molecular perfeito.
Ainda não temos testes clínicos amplamente validados que capturem toda essa complexidade.
6. Quando não implanta, o que isso significa?
Significa que, naquela tentativa específica:
- O embrião era cromossomicamente normal
- Mas não reuniu todos os elementos biológicos necessários para iniciar a implantação
Sem culpa.
Sem diagnóstico definitivo.
Sem sinal automático de que “algo está errado”.
É parte da probabilidade inerente à reprodução humana.
7. A mensagem mais importante
A medicina reprodutiva trabalha com probabilidade, não com garantias.
PGT-A aumenta a chance de gravidez por transferência.
A idade influencia o cenário.
Implantação não é automática.
Falhas consecutivas podem acontecer por estatística.
A taxa cumulativa de sucesso é alta ao longo das tentativas.
Um embrião euploide que não implantou não é o fim da linha.
É parte da biologia real e complexa da reprodução humana.
O caminho não é procurar culpados.
É reavaliar com serenidade, manter racionalidade científica e seguir adiante.
Na imensa maioria dos casos, o embrião certo vem.



